— agridoce

Dia do Sobrinho

Dia 5 de novembro, como muitos puderam saber pelas redes sociais, é o Dia do Designer. A data foi definida por ser o dia do aniversário de Aloísio Magalhães, um dos pioneiros do design moderno no Brasil. Durante a semana toda grande parte dos designers que conheço e que não conheço inundaram o facebook com imagens da campanha divulgada pela Revista De2ign. A campanha não veio acompanhada de nenhum tipo de manifesto ou ação concreta, só divulgava imagens com frases do tipo “Esta pessoa soletra sempre sua profissão quando lhe perguntam”, “Esta pessoa não é design e nem faz designer”, resumindo: o famigerado mimimi. Eu não sei qual é a reação que as pessoas que não são designers tem ao ler esse tipo de coisa, mas eu, mesmo sendo, sempre penso um grande “Aham, Cláudia, senta lá”.

Entendo os percalços da profissão – os problemas com clientes que não dão o devido valor ao serviço e o desconhecimento de boa parte das pessoas quanto ao que realmente faz um designer, e também passo por todos eles. Mas o tipo de atitude dessa campanha me deixa em dúvida quanto a diversos fatores. Quem é mais responsável pelo mercado em que atuamos, nós ou os clientes e o resto do mundo? É justo exigir que um cliente saiba todas as etapas de um projeto de design e todo o custo que isso envolve? Particularmente, eu não sei nada sobre o dia a dia de muitas profissões das quais tenho contato, e acredito que existem muitas que sofrem com os mesmos problemas – ou piores – que nós. Apesar disso, nunca vi um arquiteto reclamando que perdeu uma obra para um pedreiro sem formação acadêmica. “O mercado dita as regras”? Talvez, mas o fato é que não existe um mercado só, existem necessidades diferentes para projetos e profissionais diferentes.

A distorção do design tanto como conceito quanto como profissão historicamente não partiu somente dos clientes. Afinal, quem faz e divulga a grande quantidade de “projetos-conceito” coloridos e engraçadinhos que, quando são produzidos, não tem utilidade alguma e não são acessíveis às pessoas, são os próprios designers. É só olhar na grande maioria dos “blogs de inspiração” da área. Cabe a nós mostrar o devido valor de um projeto, começando pela escolha do projeto e, acima de tudo, sabendo transmitir seu ponto de vista ao cliente.

Portanto, vale voltar o olhar a nós mesmos e tentar analisar questões que, se resolvidas, seriam bem mais efetivas: será que o seu design realmente vale mais que o de um “sobrinho”? Você realmente põe em prática o processo que valorizaria seu trabalho? O seu cliente tem a obrigação de saber do que você está falando ou seu ego que não te deixa explicar? Pra terminar, conversando sobre isso com a Gabi, ela lembrou de uma frase da crônica “Da Timidez”, de Luis Fernando Veríssimo, que se aplica muito bem nesse caso:

É como no paradoxo psicanalítico, só alguém que se acha muito superior procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se sentir inferior é doença.

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